sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Vamos entender porque a contemplação meditativa enquanto forma de investigação científica foi retirada das pautas da ciência


Vamos entender porque a contemplação meditativa enquanto forma de investigação científica foi retirada das pautas da ciência

 

Para a maioria das pessoas e até mesmo para muitos cientistas que hoje estão investigando a meditação e o seu papel na vida dos seres humanos, deduzem que a meditação não tem um papel além de trazer benefícios físicos e psicológicos ou que se restringem à práticas meramente de cunho religioso sem que por trás dessas, guarde uma profunda e sistemática abordagem de investigação sobre a natureza humana. O professor Alan Wallace em seu livro, Mente em equilíbrio diz: “acredita-se acerca da meditação que essa é uma boa técnica de relaxamento para aliviar a tensão e funciona como terapia secundária para certas enfermidades” e também diz que “certas religiões (hinduísmo, budismo e algumas outras) a utilizam como parte do culto e não há o que mais dizer! O que não se revela é o papel da meditação como instrumento de precisão para explorar cientificamente a consciência e o universo – isto é, usando métodos empíricos similares àqueles inerentes ao método científico”. É justamente nesse último ponto é que quero discutir aqui: Exceto em contextos de práticas e praticantes de diferentes abordagens espirituais que compreendem a  contemplação meditativa como um instrumento de investigação da própria natureza da consciência e da realidade que nos cerca através das experiências sensoriais, para a comunidade científica de modo dominante pelas neurociências, o público leigo e até mesmo para grupos religiosos dogmáticos, a meditação não teria esse papel, mas sim de algo para confortar o ser humano e trazer benefícios físicos e psicológicos apenas, não se entende essa como uma própria ferramenta de investigação sistemática e metodológica sobre a mente humana.

Há milhares de anos, meditadores de diferentes tradições espirituais tem investigado e revelado sistematicamente suas descobertas sobre a realidade interior e às relações destas com os fenômenos exteriores, porém, mesmo descobrindo os benefícios físicos e psicológicos por detrás destas práticas, entendiam-se esses benefícios como secundários e não como objetivo principal como vem sendo veiculada a prática da meditação nós dias de hoje. O mesmo autor em seu mesmo livro citado acima diz que: “Se alguns desses contemplativos deliberadamente mantiveram suas descobertas em segredo, a principal razão de as verdadeiras origens da meditação permanecerem ainda hoje ocultas do público se deriva do modo tosco como definimos “religião”. O modo tosco como o autor se refere a forma como definimos religião, é no sentido de entendermos a religião como uma mera crendice alicerçada na fé e na devoção cega à autoridades humanas aonde ao mesmo tempo que negligenciamos ao confundirmos os verdadeiros praticantes espirituais que exploram de maneira honesta os fenômenos espirituais, experimentando-os e confirmando-os diretamente através de suas práticas como muitos contemplativos ocidentais e orientais o fizeram ao longo da história, com pessoas ingênuas e sem criticidade que acreditam em autoridades, grupos e seitas religiosas sem questioná-las e experimentar em seu laboratório íntimo de práticas interiores, questionando criticamente o que está sendo difundido por esses grupos e pessoas desqualificadas por não terem realizado essa jornada investigativa dentro de si mesmos. Confundir esses dois tipos de praticantes e não perceber a diferença entre eles, é de uma enorme ingenuidade por parte das pessoas leigas e principalmente da comunidade científica, quando confortavelmente querem por postura apriori,  reducionista, e de tamanha desonestidade intelectual, colocar todos em um mesmo balaio. A contemplação meditativa quando investigada e principalmente praticada com empenho, torna-se um veículo e instrumento para à investigação da consciência humana, sem precedentes em nossa história. Precisamos entender que a prática da contemplação meditativa, composta por seus métodos, epistemologias e abordagens próprias, diferem-se radicalmente da religião puramente alicerçada em forma de fé inquestionável e principalmente investigável por qualquer tipo de método, seja o das chamadas ciências naturais ou das ciências da contemplação meditativa. Se essa compreensão não por colocada em pauta, será impossível encontrarmos um ambiente fértil e intelectualmente honesto, entendendo que ao transformarmos a meditação em um objeto de pesquisa, esse não pode ser fundamentado apenas em teorias e exames laboratoriais, mas também na prática de campo aonde o sujeito experimenta e vivência a meditação e seus efeitos nele mesmo, em sua própria humanidade, para ai sim, podermos contemplar e compreendermos o potencial dessa prática e não apenas limitá-la ao paradigma da mente subproduto do cérebro.

Em boa parte do século XX às ciências da psique foram influenciadas pelo behaviorismo que têm como modelo explicativo e de abordagem à investigação da natureza animal e humana através de seus comportamentos. Nesse tipo de abordagem se evita completamente utilizar-se da introspecção como forma de investigação de nossa própria mente e vivências pessoais, ou melhor dizendo, nessa forma de abordagem a mente, o interior é inexistente, o que existe são os fatores externos ambientais que influenciam os comportamentos e ações dos sujeitos. Na segunda metade do século XX para frente, com a psicologia cognitiva, essa passou a olhar com mais cuidado a experiência subjetiva ao mesmo tempo que a tecnologia computacional avançava e então passa-se a fazer correlações da mente humana com um computador. É comum, percebermos essa narrativa dentro da ciência aonde o cérebro é entendido como uma máquina biológica e o mesmo torna-se análogo com relação às fenomenologias mais “sutis” como os pensamentos, memória, imaginação ou os processos mentais como um todo que passam a ser entendidos como a expressão ou os efeitos dessa máquina biológica.  

Com os avanços das chamadas neurociências, uma corrente de pensadores cientistas, concluem que de fato a mente é uma espécie de subproduto do que o cérebro produz, como se a mente fosse uma matéria prima criada pelo próprio cérebro, como diz Alan Wallace citado acima: “alegam que toda a nossa experiência pessoal consiste de funções cerebrais, influenciadas pelo resto do corpo, pelo DNA, dieta, comportamento e meio ambiente. Em última análise, os seres humanos são robôs biologicamente programados, o que implica que, no essencial, não temos mais livre-arbítrio que quaisquer outros autômatos. Nossos programas são simplesmente mais complexos que aquelas máquinas feitas pelo homem. Mas nem todos os neurocientistas concordam. Alguns estão agora explorando os efeitos dos pensamentos e do comportamento no cérebro. Como geralmente consideram a mente uma propriedade emergente do cérebro, o que estão dizendo é que certas funções do cérebro influenciam outras funções. Por ora, contudo, não há um consenso claro sobre as implicações da pesquisa conduzida até aqui”, ou seja, entende-se aqui, que tudo advindo da mente (pensamentos, memórias, imagens mentais e etc), são a consequência da estimulação e interação entre estímulos cerebrais através de neurônios, neurotransmissores, ligações sinápticas; aonde se acredita e não existe melhor palavra do que essa, crença, de que a relação de propriedades biológicas-químicas, fossem capaz de produzir pensamentos ou tudo aquilo que atribuímos a mente. Essa é uma ideia tão absurda, que poderíamos aferir que através dessa crença, que se criarmos um condição biológica isolada contendo toda a complexidade orgânica de elementos físico-químicos portadores de células nervosas e propriedades biológicas semelhantes as encontradas no cérebro, essas produziriam manifestações mentais, como pensamentos e etc. Se conduzirmos uma linha de raciocínio nessa perspectiva, poderíamos entender que talvez os reinos minerais e vegetais ou animais não humanos também manifestem aspectos da ordem da mente como sonhos, pensamentos, memórias entre outros, pelo simples fato de conterem essa natureza parcialmente comum aos humanos no que se limita as “sinfonias biológicas e químicas” que também acontecem nesses outros reinos.

Por outro lado, se entendermos que a natureza da mente, não é limitada ao espectro biológico da vida, poderíamos sim, compreender que existe um nível de mente operando em todos os outros reinos da natureza, o que numa perspectiva não materialista da mente diferentemente da ideia dos processos mentais serem um mero reflexo de operações biológico-cerebrais, é possível de ser contemplada, que as manifestação dos pensamentos, sentimentos, memórias, sonhos e etc; possam sim surgir em algum nível e de alguma forma, em todos os reinos, porém, ao trazer a perspectiva dominante aonde a mente passa a ser entendida como algo restrito a esfera biológica, como um subproduto do cérebro, nos parece absurdo a ideia de pensar que talvez as pedras, plantas e animais sonhem, e portem uma intrincada, complexa e rica manifestação psíquica, porém, nesse tipo de narrativa e crença “científica”, criamos terreno para pensarmos esse tipo de coisa. Em algum nível pela perspectiva materialista, é sabido que os reinos vegetais e animais também tenham sentimentos e emoções, mas quando contemplamos a crença de se achar que os mesmos são reflexos do funcionamento cerebral, damos margem a pensar que os mesmos também possam estar tendo processos semelhantes aos humanos. Entender que talvez os reinos minerais, vegetais e animais sonhem não é nada absurdo do ponto de vista não material da mente, mas quando olhamos isso do ponto de vista material, nos defrontamos com o quanto é absurdo pensar que mente é subproduto do cérebro.

Por qual motivo, as neurociências estão tão fixadas com a ideia de eleger neurônios, neurotransmissores e sinapses, estimuladas em regiões específicas de nosso cérebro conforme recebemos estímulos exteriores ou o criamos internamente como numa ação voluntária de pensar em algo, como se essas funções físico-químicas fosse a resposta para a criação de todo espectro da consciência de coisas que fazemos? Por que não podemos, apenas contemplar a ideia, de que nosso cérebro é apenas um hardware que recebe inputs vibracionais de uma consciência (software) mais ampla, aonde a partir dessa consciência, tudo passa a ter um sentido e ai compreendemos que neurônios e cérebro, são apenas componentes físicos para que possam traduzir esses inputs vibracionais sutis recebido pelos pensamentos através da nossa consciência?

Quando pensamos no amplo espectro do que significa “a mente” não está limitada a uma visão biológica ou material da vida e por não ser através da investigação laboratorial física que compreenderemos as suas potencialidades, mas sim de uma investigação aonde o laboratório torna-se a própria prática contemplativa do sujeito, aonde a sua própria humanidade torna-se o instrumento dessa jornada de investigação, penso sobre os terrenos inexplorados pela nossa ciência que ainda não estão sendo devidamente investigados e com a atenção que a meditação necessita, como diz Alan Wallace: “Contemplativos no Oriente e no Ocidente, porém, exploraram a natureza da mente, da consciência e a identidade humana, e creio que iluminaram dimensões da realidade que continuam em grande parte inexploradas no mundo moderno”; em dois outros artigo que escrevi intitulado: “Aonde a linguagem e o conceito não alcançam, poderemos ser conduzidos apenas pelo silêncio” e “A Introspecção Yogue como novas perspectivas para a ciência” nesses artigos, discuto justamente esses pontos de dimensões da realidade que continuam não sendo exploradas pelo mundo moderno através das ciências e até mesmo da grande maioria das práticas culturais-religiosas, mas que foram sistematicamente exploradas por contempladores (meditadores) ocidentais e orientais. O ponto é que, quando colocamos em pauta, que determinados fenômenos do que podemos chamar do amplo espectro do que se pode entender como mente e consciência, num entendimento aonde a mente não é subproduto de um cérebro, ou seja, que essa é advinda de organizações mais sutis ou não físicas (pelo o menos de um espectro de natureza física que não conseguimos identificar com os nossos instrumentos de captação da realidade material ou também como realmente entendo, de espectros de realidades não físicos mesmos, aonde entendemos que toda natureza material em sua essência é vazia de forma), entende-se que a forma como a investigamos seja limitada, e é justamente aqui que a prática contemplativa, aonde o humano com sua própria “tecnologia” de portar um corpo e uma psique humana que através do seu auto laboratório contemplativo, explora dimensões que as máquinas não alcançam, mas que o silêncio e toda uma estruturação, abordagem e epistemologia desenvolvidas por esses contemplativos orientais e ocidentais alcançam. Essas seriam as dimensões da realidade não exploradas no mundo moderno, como dita pelo autor citado acima, pelas escolhas que tomamos ao desenvolvermos nossas formas de se fazer ciência. O que está em questionamento aqui, não é a tentativa de desencorajar os neurocientistas em suas empreitadas pelas correlações entre os pensamentos e o cérebro, os estímulos sensoriais e o cérebro, pois obviamente, isso também é um campo de pesquisa, mas além dessa, é abrirmos para uma janela de possibilidades que existe em explorar as próprias potencialidades do humano, a partir da investigação contemplativa que esse faça no seu próprio “laboratório do ser” aonde o silêncio e mais toda uma ciência de práticas desenvolvidas já milenarmente o conduziriam a exploração dos seus processos mentais e da consciência como um todo, de forma sem precedentes. Alan Wallace com respeito a isso diz: “talvez alguém tenha reparado que, em todas essas abordagens, algo crucial foi deixado de lado: nossa experiência pessoal do que é ser uma criatura humana”; a ideia que entendo aqui é no sentido do que é ser uma criatura humana, é não perdemos de vista que a nossa humanidade ou o estar humano, no sentido daquele que sente desejos, apegos, frustrações, aquele no qual a vida pulsa dentro de si, nesse contínuo laboratório chamado de vida que nunca para, enquanto estamos vivos biologicamente ou não se pensarmos que também somos seres espirituais (não físicos), no sentido que é esse humano que está ali o tempo inteiro sendo bombardeado pela vida por estímulos sensoriais incessantes e que é o espectador e protagonista dessa mente operando, nesse sentido, qual instrumento seria o mais adequado ou o que teria mais autoridade a investigar a mente humana que se não o próprio humano? O estar humano nessa forma de enxergar, se torna de fato o grande protagonista dessa mente, por conviver junto com a própria o tempo inteiro. É importante que não percamos essa dimensão quando temos como objeto de estudo a própria mente se entendermos que nós humanos como aquele que convive com essa dimensão da mente de maneira incessante, somos o melhor instrumento para investigar a própria.  

Como venho discutindo em outros artigos e dentro desse livro, a pauta das pesquisas acerca da meditação nas investigações científicas, está demasiadamente olhando para o paradigma da mente como um subproduto do cérebro procurando desvendar os impactos da prática meditativa em nosso organismo e cérebro, mas não estão sendo colocados em questão (apenas em casos excepcionais) as orientações deixadas pelos santos e yogues que se referiram a essa prática como um “modus operandi” de investigação da própria natureza dessa mente. Toda a riqueza de métodos e práticas compiladas por contemplativos ocidentais e orientais sinalizando terrenos ainda não explorados por nossa ciência atual, estão sendo negligenciados em nome do pragmatismo materialista de uma ciência que parti de uma narrativa e pautas apenas com provas materiais, no caso, às repercussões dessa prática em nosso cérebro e em nosso psiquismo e organismo biológico como um todo. Nessa forma e narrativa em se fazer ciência, não está cabendo ou se dando lugar ou sendo considerado com o devido cuidado os fenômenos não detectáveis pelas máquinas mas que o humano identifica, senti-os e classifica-os a partir de suas experiências práticas através da contemplação meditativa. A esse respeito Alan Wallace diz o seguinte: “a religião se tornou tão dependente da doutrina, e a ciência tão materialista, que métodos contemplativos de investigação costumam ser esquecidos. No mundo moderno, a meditação, quando praticada, é muitas vezes usadas apenas para aliviar o stress e superar outros problemas físicos e psicológicos. Mas a meditação pode também oferecer algumas das percepções mais profundas que somos capazes de alcançar sobre a natureza e a identidade humanas”. 

 

Inspirado no artigo “Quem eu sou” do livro a “Mente em Equilíbrio” do professor Alan Wallace

@professormichelalves

 

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